O adolescente Josué Nogueira tinha apenas 16 anos quando foi assassinado no último domingo, em Montes Claros (MG), de forma covarde por um policial. Josué conversava com um grupo de amigos próximo à casa do suspeito. Como eles se recusaram a fazer silêncio, o policial correu atrás dos rapazes com uma arma. Os amigos de Josué conseguiram escapar. Josué voltou para calçar a sandália que saiu do pé enquanto ele corria e teve sua vida interrompida.

A barbaridade cometida contra Josué não é um caso isolado. No início de julho, o Brasil também se indignou com a morte do  pequeno Ítalo Augusto, que foi assassinado com com um tiro na cabeça enquanto brincava na porta de casa em São João de Meriti, Baixada Fluminense do RJ. Josué, Ítalo, Kauan, Ágatha, João Pedro, Kauê são os nomes mais recentes que ecoam em nossa memória das crianças vítimas da “bala perdida” que sempre encontra o alvo nos corpos negros das periferias.

Há 42 anos, em seu livro Genocídio do Negro Brasileiro, Abdias do Nascimento escreveu sobre como as instituições e elites brancas de nosso país passaram da lógica de desumanização e coisificação que estruturava a escravização negra no Brasil para o racismo supostamente velado, e o mito da democracia racial que perpassam até hoje a nossa sociabilidade. Em 1978 Abdias já nos alertava sobre a sofisticação do racismo à brasileira, que se reinventou para criar e perpetuar o violento e histórico extermínio do povo preto.

Infelizmente, mesmo tantos anos e mortes depois, a sociedade brasileira segue sendo incapaz de reconhecer e dar o devido nome para o processo que vive. De acordo com a última edição do Atlas da Violência, 75,5% das vítimas de homicídio no país no ano de 2017, eram negras; das 5804 mortes resultantes de ações policiais no ano de 2019 ocorridas no Brasil, 4533, ou 75%, das vítimas eram negras; até junho de 2017 61,6% dos encarcerados no Brasil eram negros; em 2017 a Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro recebeu, entre agosto e outubro, 42 denúncias de intolerância religiosa, sendo que 91% delas ocorreram contra credos de matriz africana; segundo dados de 2018 apurados pelo IBGE, 64% dos desempregados à época no país eram negros; dados da prefeitura de São Paulo afirmam que risco de morte por Covid-19 na cidade é 62% maior para pessoas negras.

Há, portanto, uma evidente predileção do estado em matar, subalternizar e violentar simbolicamente pessoas pretas. Como negar, dada a nitidez dos dados apresentados, que há um genocídio racista em curso?

Genocídio, termo utilizado para se referir ao extermínio sistemático de um grupo étnico, é palavra que precisa urgentemente começar a ser usada pela mídia, sociedade e veículos de comunicação, para nomear as violências que sofremos. É urgente que seja  iniciado um processo real de responsabilização dos culpados por este extermínio e a superação sistemática desta realidade opressiva. Dar o devido nome para o fato tem não só um valor simbólico, mas opera também no universo fático, promovendo mudanças. O povo preto brasileiro não aceita mais ser violentado e morto cotidianamente. A luta antirracista precisar seguir firme e o genocídio da população negra precisa ser reconhecido, reparado e superado.

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