Somos as filhas e netas que conquistarão os direitos e sonhos perdidos

“Que os homens de amanhã, que aqui vierem, tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”
essa foi uma das mensagens escritas pelos candangos encontradas nas estruturas da Câmara Federal.

Sou neta dessa gente, que saiu dos seus lares em busca de uma vida melhor. Cresci ouvindo as histórias de minha avó Nascimenta, uma mulher negra que saiu sozinha de São Domingos, interior de Goiás, aos 14 anos, em 1956. Seu propósito? Fugir do destino determinado de crescer, casar, ter filhos e morrer. Veio em direção a terra prometida de Brasília. Aqui teria emprego, futuro e principalmente esperança de um novo Brasil, o país do novo desenvolvimento.

Sozinha, logo se arrumou nas obras da nova capital fazendo o que precisava, cozinhava e limpava. Mas logo veio o declínio da construção civil. Foi parar nos apartamentos dos senhores do poder de Brasília, onde foi superexplorada e, segundo ela, ali não era seu lugar. Não seria humilhada!

Voltou para as obras de Brasília. Foi então que veio o momento da expulsão dos candangos de seus alojamentos, história de milhares de trabalhadoras e trabalhadores que foi relatada imensamente na literatura brasiliense. O sonho prometido se transformava em pesadelo. Uma cidade construída com choros, humilhações e dias exaustivos e noites mal dormidas. Minha avó, como tantos outros, foi jogada para muito longe do lugar que ajudou a construir. Este lugar é onde nasci, cresci e vivo até hoje, minha amada Ceilândia ou melhor minha CIDADE LIVRE.

Quase cinquenta anos se passaram desde a expulsão dos construtores de Brasília para as periferias como a Ceilândia. De lá pra cá muita coisa mudou. Construímos uma verdadeira cidade, com suas belezas e contradições, com muitos sonhos, muito suor e muita luta, resistência e cultura popular. Mas uma coisa ainda não mudou muito: o direito à cidade.

Sabe-se que o Distrito Federal conserva o maior índice de desigualdade do Brasil, onde os poucos moradores do Plano Piloto têm acesso amplo a equipamentos públicos e bons empregos e a esmagadora maioria dos moradores das Cidades Satélites enfrentam dificuldades gigantescas para acessar direitos básicos como saúde e educação.

Faço parte de um setor da juventude que estuda e trabalha longe de onde mora. Pra sair de casa na Ceilândia e chegar ao meu trabalho levo quase duas horas, muitas vezes pego duas conduções e ainda caminho alguns bons minutos. E ainda podemos dizer que a Ceilândia goza de algumas estruturas que outras cidades não tem, como por exemplo o metrô (seu projeto, até hoje, não foi concluído), que leva ao centro do poder de Brasília.

Os motivos de nos submeter a essa vida cotidiana é também muito simples de identificar: as oportunidades de emprego e estudo ainda estão concentradas numa região. Quase 50% das vagas de emprego no DF são ofertadas no Plano Piloto, por exemplo.

As enormes contradições vividas pela maioria da população do DF estão distantes das preocupações dos gestores e governantes da capital. Só nestes primeiros meses, por exemplo, já ameaçaram restringir o nosso passe-livre, agora estão discutindo privatizar o metrô. Como disse no início, somos as netas desse povo que levantou Brasília e carregamos essas vivências. Por isso, como educadora e produtora movimentamos a cidade. Mostramos a força e a beleza do nosso povo. Não nos contentamos com o pouco que nos oferecem, estamos ocupando as universidades e os espaços de debate sobre a cidade, apesar deles.

Resistimos, sonhamos e lutamos por uma cidade feita por nós e que seja para nós. Uma cidade que seja orientada pela lógica dos moradores e não pelos empresários. Somos as netas que vão arrancar a compaixão e exigir os nossos direitos dos “homens de amanhã”.

Raquel Vieira

Coordenadora da Rede Emancipa de Educação Popular, militante da Articulação de Jovens Negras Feministas, moradora da Ceilândia, estudante de Gestão Pública, educadora popular e produtora cultural.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

Todos os textos são de responsabilidade do(a)s respectivo(a)s autore(a)s.

 

Conheça nossa Newsletter!

Inscreva-se para receber informações toda semana sobre o trabalho do mandato na Câmara Legislativa do DF.

Obrigado! Sua inscrição foi confirmada.