Sobre o Direito de um Povo ao Culto e à Cidade

Falar sobre o direito de um povo à cidade é falar também sobre o direito de vivenciar de forma plena toda e qualquer manifestação de culto e fé. Ainda que essa concepção de cidade, como é apresentada na atualidade, cheia de prédios e carros e casas, não faça parte do cotidiano dos adeptos aos cultos tradicionais de matrizes africanas. Durante muito tempo, por incrível que pareça, já estivemos presentes nas chamadas cidades.

Muitos colocam que os candomblecistas e umbandistas criam ideias e estigmas que só existem na cabeça deles, que na pluralidade do Brasil não cabe preconceito ou discriminação, mas quantos terreiros de candomblé tem na sua rua? Quantos terreiros de umbanda tem na sua quadra? Quantas mesquitas tem no seu bairro? Agora me respondam com sinceridade, quantas igrejas, sejam elas católicas ou evangélicas tem na sua cidade?

O primeiro ponto que precisa ser colocado é que não se trata um capricho, se trata de uma estigmatização das religiões advindas dos escravizados, que nos coloca em um não lugar possível de vivência de fé, uma vez que nossa fé não tem fundamentos cristãos. A religiões de pretos nunca puderam ter um lugar na cidade. Reclamam dos sons dos nossos atabaques, das nossas danças, atiram-nos pedras por estarmos de branco e carregando nossos fios de contas dentro dos ônibus, demonizam nosso sagrado, ainda que o demônio não exista dentro da nossa tradição e quando isso não é o suficiente para nos expulsar da cidade, invadem nossas casas, destroem nossos símbolos sagrados em nome de um deus, que na sua essência prega amor e aceitação. Em nome do Deus do amor, promovem uma guerra santa silenciosa, onde o diferente não é tolerado.

O segundo ponto é que nosso problema não está relacionado ao nosso não lugar nas cidades, uma vez que na nossa concepção de fé, a preservação da natureza está diretamente relacionada com a forma com que louvamos o nosso sagrado. A zona rural, a periferia é o local das nossas vivências. Precisamos das árvores para saudar Katendê/Ossain, das matas para reverenciar Mutalambô/Oxossi, dos rios para louvar Ndandalunda/Oxum, da terra para venerar Kavungo/Omolu. O grande problema está relacionado ao processo de urbanização das áreas que até pouco tempo era considerada “zona rural”, onde as matas e rios perdem espaços para prédios e estradas, e quando a suposta modernização chega, chega junto a concepção do racismo religioso que nos diz que ali já não nos cabe mais, arrancando daquele território, anos de histórias e vivências. Na tentativa de dizimar um povo, tentam destruir a tradição do culto e fé.

No que tange ao nosso direito à cidade, precisamos entender que no caso do Distrito Federal são poucos os terreiros de umbanda e candomblé que resistem dentro do quadradinho, talvez pelos nossos tambores e danças não cabemos mais entre os modernos monumentos da capital federal. E por essa razão nos expulsam como invasores de nossos próprios territórios, seja pela nossa necessidade de matas e rios, saímos do avião e chegamos à margem.

Nessa dinâmica de transitar entre o Distrito Federal e o Goiás, os territórios tradicionais de matrizes africanas acabam por permanecer na posição de abandono, em especial, no que diz respeito à garantia e efetivação de políticas públicas. E ainda assim, os terreiros ou roças, acabam se transformando no único instrumento garantidor de uma política de assistência social, ainda que de maneira precarizada. Entender a cidade como um instrumento conector do fortalecimento da religiosidade e vivência da fé é o caminho mais curto para a aceitação da pluralidade. É necessário que percebam que, não somos nós que chegamos até as cidades, mas é a urbanização da zona rural que chega até nós, quando ela chega, os nossos ancestrais já faziam morada naquele território. Somos resistência a mais de 400 anos, e seja no campo ou na cidade, não conseguirão silenciar o som dos nossos atabaques.

Mutaledi Sanchez

Assistente Social graduada pela Universidade Católica de Brasília (2015), atualmente exerce o cargo assessora parlamentar. Entre 2015 e 2017 atuou como Secretária Executiva do Conselho do Negro do Distrito Federal. Atuou também como Assessora no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do Distrito Federal. Iniciada no Candomblé desde 2013, é Makota (Mãe) na Tumba Nzo Jimona dia Nzambi, da nação Angola. O terreiro se localiza em Águas Lindas de Goiás, entorno do Distrito Federal. Tem sua militância voltada para o Movimento Negro, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Direitos Humanos.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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