pra ver Ceilândia viva

Ceilândia é um núcleo urbano disposto na periferia do Distrito Federal, trinta quilômetros distante do Plano Piloto – cidade planejada para ser a capital do país. Sob a alcunha de um barril de pólvora, associada a seu desenho urbanístico, que lembra um barril, a terra destinada aos candangos pioneiros foi, desde a gênese, alvo de discriminação e depreciação sociocultural. Nasceu cidade-satélite sob o violento estigma de sua órbita, quando da remoção das vilas dos operários localizadas ao redor do Plano Piloto, coordenada pela sanitarista Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), iniciada em 1971, a qual os expulsou para “não-lugares” desprovidos de qualquer infraestrutura.

Embora hoje exista um quadro crítico de violência na cidade – reflexo do abandono de uma gestão pública classista e racista, o estigma carregado pelos construtores da capital que lhes foi negada tem se transformado nas últimas décadas por seus filhos e netos, os quais trocaram a ótica da dor pela da resistência. Ceilândia deixou de ser apenas uma cidade-dormitório dependente do Plano Piloto ou de sua vizinha Taguatinga: se desenvolveu e, hoje, é toda a região do Distrito Federal que dela depende. Com quase 500 mil habitantes – a maior população do DF, a cidade de 48 anos emprega mais da metade de sua população economicamente ativa, tem mais de 12 mil estabelecimentos comerciais e é responsável por 1/4 do Imposto sobre Circulação de Mercadoria (ICMS) recolhido pelo governo.

No Distrito Federal, os locais destinados a lazer e cultura majoritariamente ainda se concentram no centro. Na periferia, em especial na Ceilândia, essa falta, somada à distância do centro e ao sistema de transporte público pouco efetivo, tornou-se potencial de ocupação do espaço público por meio da expressão cultural. Coletivos originários da cidade movimentam a cena e promovem eventos gratuitos ou de baixo custo nas ruas e praças locais, progressivamente reconhecidos por gente de toda Brasília. Essa dinâmica é carregada de identidade própria e não é ou busca ser equivalente ao que acontece no Plano Piloto: a cultura do rap, da poesia, da rima (e hoje também do trap, do vogue) reverbera a vivência periférica e a diversidade de Ceilândia, resgatando sua história e reivindicando seu lugar de direito à cidade.

O cartão-postal de Ceilândia é a Caixa d’Água, inaugurada em 1977 e tombada como patrimônio em 2013. O monumento se configura símbolo não somente por sua localização central na cidade ou por sua estética, mas por traduzir uma conquista histórica: em seus primórdios, a cidade não contava com saneamento básico, e o abastecimento de água era realizado por meio de caminhões-pipa. O reservatório levou dignidade e maior qualidade de vida àquelas pessoas, simbolizando um resgate de sua autoestima, e recupera essa história a cada vez que se passa por ele.

O forte cenário de cultura e lazer ceilandense se destaca no imaginário da cidade e tem valor de memória – e o espaço deve corresponder a isso. Sua preservação e disseminação devem estar associadas ao espaço e seus principais símbolos. Hoje a Caixa d’Água encontra-se enclausurada em terreno particular da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB). Por que não liberá-la para usufruto da população, permitindo-a acessar sua história e também ressignificá-la? Por que não transformá-la em palco de expressão de todo esse fervor cultural da cidade? Por que ela não pode ser, de fato, um ponto turístico de Brasília, considerando, aqui, o símbolo conta a história e representa a luta popular pelo direito à cidade, enquanto os símbolos do Plano Piloto foram designados antes da própria capital?

Daniel Melo

Nascido e criado em Ceilândia, gay e arquiteto urbanista pela Universidade de Brasília, acredita no papel social do arquiteto, na interdisciplinaridade técnica e na poesia nos espaços, da maior à menor escala. Aposta no processo — humano, participativo, coletivo e imagético — mais que no produto final, como um dos meios fundamentais para alcançar o indivíduo. Co-fundador do Da Cei Eu Sei, coletivo que se propõe a estudar, conscientizar e transformar o espaço em Ceilândia/DF por meio de ações junto à população local.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

Todos os textos são de responsabilidade do(a)s respectivo(a)s autore(a)s.

 

Conheça nossa Newsletter!

Inscreva-se para receber informações toda semana sobre o trabalho do mandato na Câmara Legislativa do DF.

Obrigado! Sua inscrição foi confirmada.