Por mais gestores que vejam a cidade real e não através do vidro de carros (oficiais)

No ditado da classe média local, Brasília é habitada por seres de cabeça, tronco e rodas. No dia a dia da população, se sabe que Brasília é feita na verdade por gestores que vem a cidade através do vidro de seus carros e que ignoram as condições nas quais as pessoas comuns se viram para chegar ao trabalho. Os caminhos feitos a pé até o ponto de ônibus, a qualidade desses ônibus, o custo da passagem (será que depois de fazer os corres vai sobrar pra botar crédito no celular?), as panes de um metrô com manutenção insuficiente, os ataques ao passe livre estudantil… São várias as ameaças e as dificuldades para quem se vira como pode para se mover pelo DF e sua região metropolitana.

Como diz o Max Maciel: “Se tem pão na padaria, ônibus circulando e seu café tá pronto, é porque a Periferia acordou primeiro”. Acordou primeiro, levou mais tempo na rua até chegar ao trabalho e proporcionalmente gasta mais da sua renda com deslocamento. Ainda assim, a prioridade do governo Ibaneis é reduzir IPVA, enquanto ataca o direito ao passe livre estudantil e faz solução amadora e provisória para o corredor de ônibus da EPTG, repetindo a falta de coragem de sucessivos governantes de não cobrar das empresas de ônibus que comprem os veículos adequados para operar no local.

De acordo com os dados da própria PDAD (Pesquisa Distrital de Amostra por domicílio), são as cidades do DF de maior renda (grupo 1) que comodamente escolhem o automóvel (77%) como meio de transporte rumo aos seus postos de trabalho geralmente localizados perto de casa. Já nas cidades de menor renda (grupo 4), é o ônibus que lidera como opção de transporte, com 57%.

Ainda de acordo com a PDAD 2018, automóvel é a escolha de 56% de quem vai para a escola nas cidades de mais alta de renda do DF e 9% vão a pé. No grupo de cidades de menor renda são 9% que vão para a escola de automóvel enquanto que a pé lidera com 38%.

A moradia pesa nos orçamentos familiares com consequências bem negativas, expulsando parte da população para fora do DF e obrigando de forma geral famílias a morarem longe dos postos de trabalho e de equipamentos urbanos, ficando refém de deslocamentos cansativos diariamente.

Sucessivos ocupantes do Palácio do Buriti, uns com mais e outros com menos empenho, tentam acomodar e atender a demanda de condutores de automóveis por ainda mais espaço que é, em si, insaciável e insustentável. Chama-se de demanda induzida nos estudos de transporte: quanto mais espaço se oferece para o uso do carro, mais carros são atraídos para as ruas, num ciclo vicioso infindável de geração de problemas urbanos.

Enquanto isso, o projeto de implementação de uma política de estacionamento rotativo em áreas públicas continua a fazer aniversário nas gavetas da burocracia candanga, transformando as áreas centrais do Conjunto Urbanístico de Brasília num grande estacionamento gratuito a céu aberto. A prioridade dada às demandas locais de moradores de áreas nobres de Brasília, que costumam possuir garagens cheias de automóveis, também não contribui para reduzir a dependência local do deslocamento motorizado. A classificação de áreas do Lago Sul e Park Way como “residencial exclusivo” na Lei de Uso e Ocupação do Solo significa, na prática elitista, aumentar as distâncias percorridas, afastando as moradias dos locais de trabalho e oferta de comércio e serviços.

Diversificar as atividades dentro das cidades do DF, encurtar as distâncias a serem percorridas e oferecer diversidade nos meios de transporte são medidas inadiáveis e necessárias para reduzir nossa dependência do uso do automóvel e, consequentemente, dos combustíveis fósseis. Ibaneis quer posar de nova política, mas está mesmo é dirigindo na contramão.

Renata Florentino

Brasiliense, socióloga, gosta de andar pela cidade, já pedalou muito mas agora virou canguru com dois bebês no colo. Dá um pulo aqui e outro ali, sempre pela esquerda.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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