Ocupar vazios, diminuir distâncias, promover encontros

A metrópole brasiliense conta com mais de 3 milhões de pessoas e a previsão é de que esse número chegue a quase 4 milhões nos próximos dez anos. Para uma cidade que foi pensada para 500 mil habitantes, a atual população do DF impõe novos desafios de gestão e planejamento, mas também novas possibilidades e potencialidades que só um aglomerado urbano nessa escala pode oferecer. O desafio é garantir que a população consiga acessar as vantagens de se viver em uma metrópole e não apenas seus problemas.

Brasília se tornou a terceira maior metrópole do País em um impressionante processo de crescimento urbano e populacional, o que nos exige um significativo esforço para compreender e apreender a realidade contemporânea desse território que, há quase seis décadas, precisou de enormes esforços para garantir que a nova cidade fosse ocupada minimamente e pudesse funcionar como nova capital. Então, partindo de um cenário em que eram necessários incentivos para que funcionários públicos viessem morar aqui (como a famosa dobradinha) e de muito ceticismo se Brasília “daria certo”, para o cenário de Brasília como a terceira maior metrópole do país, houve enormes mudanças espaciais, culturais, ambientais e sociais.

Brasília nasceu com a proposta de ocupar vazios, seguindo a violenta lógica bandeirante, em um entendimento que considerava o Cerrado como mato a ser removido e os territórios tradicionais como desocupados. No entanto, apesar dos problemas de destruição ambiental e inúmeros conflitos sociais, o projeto teve êxito ao povoar o Brasil central, semeando inúmeras novas cidades.

A realidade é que Brasília, com sua proposta urbanística modernista, transformou o Cerrado em vazios urbanos cheios de gente.

Brasília também construiu distâncias. Cortou (literalmente) o Cerrado e foi estabelecida em um sítio distante das principais cidades do Brasil da primeira metade do século XX. Além das grandes distâncias em relação ao mapa do Brasil, o Plano Piloto rompe com a escala tradicional das cidades: suas medidas não são feitas em passos e palmos, mas na referência do espaço/tempo do automóvel. É uma cidade que nasceu para ser vivida na grandeza km/h e, infelizmente, assim tem crescido. As distâncias a serem vencidas para que a população realize as mais corriqueiras atividades são impressionantes: entre o Plano Piloto e a comunidade do Sol Nascente, na Ceilândia, por exemplo, é possível colocar toda a ilha de Manhattan (em sua maior dimensão!). Essa é a escala da metrópole que vivemos, uma cidade que em que a distância física é sinônimo de distância social, de exclusão e de segregação.

Brasília é solidão. É paisagem de Cerrado (ou o que sobrou dele), na paisagem larga do Planalto Central com seu horizonte 360graus. Brasília é o candango que deixou sua família e veio tentar a vida (sozinho). Brasília é carro com uma pessoa só. Brasília é esperar o ônibus na parada, é caminhar pela superquadra sem encontrar ninguém, é JK olhando o eixo monumental do alto. Brasília é a solidão de quem atravessa o eixão. Brasília é a vida no barraco no descampado perto do Parque Nacional.

Brasília é o DF todo? Brasília é Asa Sul, Asa Norte, Ceilândia, São Sebastião, Estrutural, Águas Claras, Taguatinga, Gama, Recanto, Samambaia… Brasília é um somatório de RA. Brasília é o DF todo. Brasília é o território escolhido por sonhos, habitado por candangos-pioneiros-novos-candangos e por quem já nasceu aqui e que agora, quase 60 anos depois, tem uma grande missão de retomar o espírito inovador e o compromisso com a qualidade dos equipamentos e obras públicas possibilitando que tenhamos um futuro alternativo ao que está sendo moldado com segregação sócio-espacial e péssimos espaços urbanos.

É preciso, urgentemente, combater o crescimento horizontal descontrolado da mancha urbana, que aumentam as distâncias, aumentam os custos da implementação e manutenção da infraestrutura. Temos que ocupar vazios, como os inúmeros prédios sem uso na W3 norte e sul e nos setores centrais do plano piloto, adensar áreas urbanizadas. Temos que promover encontros e garantir a convivência e as trocas entre as pessoas, potencializando toda a riqueza humana do Planalto Central. O convívio com o outro permite formarmos cidadãos mais sensíveis e tolerantes.

Como sempre prega a professora Sylvia Ficher, é preciso conectar as áreas urbanas das regiões administrativas que formam a metrópole, garantindo conexões para o transporte público e principalmente meios não motorizados de locomoção. Nesse sentido, é urgente que tenhamos uma revolução em relação à mobilidade urbana, só assim asseguraremos o direito à cidade à maior parte da população, sobretudo àquela mais necessitada.

Os problemas do processo metropolitano e de grandes aglomerações urbanas já foram amplamente debatidos. Temos agora que, metrópole posta, garantir condições para seus moradores, nosso maior patrimônio, possam vivenciar as possibilidades que só tanta gente reunida pode gerar. Lembrando Clarice, que ao visitar Brasília, disse que povoar a cidade era urgente: “Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la”. Vamos povoar Brasília, ocupemos seus vazios! Conectemos seus moradores!

Luiz Eduardo Sarmento

Arquiteto e urbanista graduado pela Universidade de Brasília e especialista em Reabilitação Ambiental Sustentável Arquitetônica e Urbanística pela mesma instituição. Foi aluno especial em arte e design na Ortwein Schulle, em Graz, Austria. Militante das causas ambientais, dos direitos humanos e por cidades mais justas, é diretor de Divulgação e Cultura do IAB DF, constrói o BR Cidades no DF e é também um dos fundadores do Coletivo Arquitet_s Sociais, um grupo de ativismo, pesquisa e atuação em prol do direito à arquitetura e ao urbanismo. Atualmente é assessor do gabinete do Deputado Fábio Felix, trabalhando com pautas relacionadas ao território.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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