O medo da cidade

Há uma tendência crescente à busca pelo isolamento nas grandes cidades brasileiras. Por isolamento me refiro ao abandono progressivo do espaço público e à aposta na consolidação de espaços privados. Os serviços e o comércio se dão cada vez menos na rua, migrando para edifícios ou ambientes controlados. A moradia é considerada tão melhor quanto mais segregada: se não for possível estar em um condomínio fechado, que tenha ao menos muros altos. O passeio e o lazer também se concentram cada vez mais e, mesmo quando acontecem em espaço público, há todo um empenho na reorganização e no controle deste espaço, procurando tirar dele o que lhe é mais próprio: a imprevisibilidade que apenas a liberdade e a diversidade da cidade é capaz de oferecer.

Muitos aspectos podem ser avaliados sobre esse fenômeno. Mas talvez um dos mais curiosos seja justamente a ambiguidade da sua realização: parte essencial do sentido de existirem grandes centros urbanos se relaciona com as possibilidades de encontro com o diverso, de acesso ao que está para além do seu universo particular, de choque e de conexão com o desconhecido. A flexibilidade, o dinamismo e a descentralização são características muito marcantes não só do urbano, mas de todo o sistema. A economia, as relações interpessoais, os processos de produção, de aprendizagem, de decisão, a política: tudo se torna cada vez menos estável, cada vez mais mutável. Então chega a parecer um paradoxo que, justamente no coração destes processos, a busca por controle se torne uma constante tão forte, tendo sua expressão maior na fissura por segurança e pela sensação de medo que se associa cada vez mais ao espaço público. Mas não é um paradoxo. Pelo contrário: é justamente por ser o centro do sistema que o mal-estar se manifesta de forma tão latente.

Quais as origens desse sentimento? O medo tem uma profunda relação com o desconhecido. Temos pavor do que não podemos prever, do que foge ao controle, do que está para além dos nossos planos. Desde a infância é assim. O primeiro dia na escola, o escuro ou estar perdido: tudo nos mergulha em um mar de dúvidas e insegurança que se reflete na sensação de medo. Durante essa fase acreditamos que os adultos nada temem e tudo sabem. Doce engano: crescemos e vivemos pressionados entre a expectativa de uma vida previsível e uma realidade caótica. O paradigma do sistema nos diz, dia a dia, que nossos sucessos ou fracassos dependem das nossas escolhas e da nossa capacidade. Nos convencemos da potência da racionalidade, que a técnica tudo pode prever, que precisamos manter todas as variáveis sob controle. Mas na prática o cotidiano corre em sentido oposto: os modos de vida se tornam cada vez menos estáveis e controláveis. Não existe emprego que não possa ser perdido, não existe plano que lhe garanta certeza de boa aposentadoria, não existe condição ou conquista que não possa ser destruída, não existe ser humano que esteja plenamente seguro.

A expectativa de sucesso e o risco de fracasso são constantes, sempre havendo o que se possa almejar e o que se tema perder. Nesse cenário, o menor sinal de descontrole pode ser o gatilho para disparar nossas angústias mais íntimas, a ansiedade, o medo, o pânico. Daí, talvez, a fissura pela segurança que tem se espalhado pelas nossas cidades. O que se pretende evitar é muito mais profundo do que a perda de um celular: o que se pretende evitar é todo tipo de adversidade que possa abalar a sensação de estar sob controle, de estar em segurança. Frente ao mal-estar do imprevisível muitos paliativos são comercializados: sistemas integrados de filmagem e monitoramento, cercas elétricas, alarmes, profissionais contratados e muros, muitos muros. Este mercado que invade as propagandas imobiliárias entendeu o sofrimento e oferece, como resposta, pílulas que ao mesmo tempo alimentam e aliviam o sintoma. Todo esse empenho busca, no limite, afastar ou manter sob supervisão qualquer tipo de conduta desviante da “normalidade”. Ou, em outras palavras, visa constranger e monitorar qualquer atitude diversa do convencional. Afinal, o diferente é sempre carregado de mistérios, traz sempre dúvidas, abre lacunas de imprevisibilidade que nos assustavam na infância e nos assustam na vida adulta.

Daí nasce a ironia de que o maior símbolo de diversidade humana, que é a grande cidade, se torne o palco de fenômeno tão radical de busca pela homogeneidade. Cada condomínio fechado tem como promessa um mundo de iguais: de vizinhos conhecidos, com mesmo poder aquisitivo, que frequentem os mesmos espaços, com filhos estudando nos mesmos colégios e viajando para os mesmos destinos no fim do ano. O apavorante cruzar na rua com desconhecidos é empurrado para além muros em um processo que alivia e reforça o medo: quanto mais avança o conforto dos espaços privados controlados, maior é o horror que se associa ao espaço público com suas infinitas possibilidades, com rostos de todos os tipos, com encontros forçados e espontâneos. Quanto maior o isolamento, menor a capacidade de conexão. Aprofunda-se, assim, o desapego pelo espaço público, o sentimento de não pertencimento e mesmo de desprezo pela cidade, vista como o depósito dos diferentes e dos “problemas” que não se quer ter por perto. Simultaneamente, portanto, se obtém o alívio e o aprofundamento do medo.

Para os que não podem acessar essas pílulas de isolamento, resta a crueldade do abandono e a busca constante por formas de resistência que, quando são bem-sucedidas, enfrentam todo tipo de críticas. Os guetos só são aceitos quando feitos pela hegemonia, seja como área de privilégio, seja como área de desprezo. A partir do momento que as populações marginalizadas experimentam ressignificar a situação de marginalidade, atribuindo sentidos positivos, de acolhimento e proteção coletiva nestes territórios, há incômodo e retaliação sistemática. Em parte por medo do empoderamento dos de baixo, em parte pelo disparate de ousar consolidar zonas em que a norma não se orienta pela hegemonia e, portanto, é capaz de botar em cheque esta mesma hegemonia.

É na grande cidade que se encontram os elos do poder. Os fluxos de decisão e de informação convergem e se expandem a partir dos grandes centros urbanos e é justamente nesta localidade que as dores e as belezas mais latentes do sistema se expressam. A cidade é, portanto, nosso maior laboratório: são as soluções e os processos ali gestados que botam em choque as tendências virtuais da globalização e as condições materiais da localidade. Retomar a experiência do encontro e do espaço público, retomar as possibilidades de compartilhamento, a soma de conhecimentos, as infinitas possibilidades, o apoio mútuo e a proteção a partir da coletividade – características que justificaram o surgir e o crescer das cidades – é, portanto, repensar a forma como a sociedade como um todo se estrutura. Falar em direito à cidade é mais do que falar em relações com espaço. É, a partir de novas relações com espaço, estabelecer novos valores e novos paradigmas, é repensar a forma como vivemos, como nos relacionamos e como construímos nossa sociedade. Precisamos substituir a pílula do isolamento, que promete aliviar mas aprofunda o mal-estar, pela verdadeira solução: o direito à cidade, assegurando o pertencimento, a segurança, o compartilhamento e a troca no espaço público, combatendo a insegurança individualista pela segurança coletiva.

Raphael Sebba

Produtor cultural, cientista social, mestrando da FAU-UnB, assessor parlamentar do PSOL e do Gabinete 24 na CLDF, fotógrafo amador e ativista do direito à cidade.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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