Nem cidade, nem cidadania: para as travestis, só sobrou o gueto

Entre as áreas de prostituição, os estacionamentos de pegação e as casas noturnas escondidas dos olhos dos cidadãos de bem (e de bens), as travestis e outras pessoas transgêneras encontraram os guetos em que poderiam ser quem eram.

Nosso momento é à noite. Nosso lugar é onde eles, os pais de família, podem nos encontrar (e se esconder) com facilidade. A W3 norte, com seus pequenos apartamentos acima dos comércios. A região próxima da fábrica da Coca-Cola, em Taguatinga. O Setor Comercial Sul, comodamente próximo ao Setor Hoteleiro.

O problema é quando a gente decide ir até um hospital. Não disseram que o SUS era pra todos? Mas a nós, vocês não verão ali. Nem nas escolas, nem no seu local de trabalho, de profissão de fé ou nas universidades. Nós devemos estar nos lugares em que possamos ter os corpos usados por eles, não nos lugares em que nossa inteligência, nossa criatividade ou nossa subjetividade possa se expressar. Nem mesmo o direito à família, a de origem ou a que por nós fosse constituída, nos pertence.

90% das nossas estão se prostituindo no Brasil. E a maioria não o faz por ter escolhido essa profissão, porque se fosse isso, não haveria problema. A maioria o faz porque não somos consideradas pessoas ou cidadãs de direito. Não temos direito a usar o banheiro público, o que se dirá dos demais serviços públicos. Somos agredidas – verbal, simbólica, física ou sexualmente – pelo próprio Estado, especialmente por meio de suas polícias.

E agora os milicos querem tomar de vez até mesmo as escolas. Os corações e mentes da juventude, que é nossa única esperança de viver num mundo menos violento e desigual. Eu quero saber como é que as nossas vão ser tratadas nessas escolas que buscam padronizar as pessoas e que reproduzem a mentira de que queiramos disseminar uma “ideologia de gênero” entre as crianças e os adolescentes.

Ah, eu fico emputecida ao saber que eles não são capazes de entender que nossas identidades são genuínas, não ideologias! Ou que a ideologia de gênero seja a própria ideologia patriarcal, aquela que enfia os sujeitos em caixinhas, alienando-os de suas singularidades, impondo a cisnorma binária de gênero até mesmo às cores, às roupas, às formas de expressar a personalidade. Mas eles usaram suas televisões, seus representantes políticos, para disseminar a ideologia do ódio contra nós. Para evitar que tenhamos qualquer avanço no âmbito dos direitos individuais e sociais.

Para eles, não somos humanas. Como exigir o direito à cidade, então? Ao simples ir e vir sem sofrer constrangimentos? O primeiro passo é uma educação emancipadora. E isso não tem nada a ver com dizer para meninas e meninos que eles têm de escolher uma dentre dezenas de identidades de gênero. Não tem nada a ver com dizer que crianças precisem ser ou gostar de qualquer coisa que não seja por seu próprio interesse. Quem quer dizer que meninos vestem azul e meninas vestem rosa não somos nós. Que vistam o que quiserem! Que tenham seu direito à autonomia respeitado. Que sejam educadas e educados a respeitarem às diferenças, a saberem que as diferenças são não só inevitáveis, mas valorosas!

É preciso também garantir nosso direito à moradia. A expulsão de casa pelos próprios pais, em geral quando ainda somos adolescentes, não pode ter como únicos caminhos a rua e a prostituição. Casas de acolhimento específicas e programas que nos garantam o direito à casa própria ou auxílio aluguel são medidas fundamentais para enfrentar essa realidade.

E, por fim, emprego. É preciso obrigar as grandes empresas a contratarem um percentual de pessoas trans/travestis, relativo ao número total de empregados, penalizando as que descumprirem a regra, a exemplo do que ocorre com a política empregatícia para pessoas com deficiência. É preciso, ainda, que haja cotas para pessoas trans/travestis no serviço público, a exemplo do que aprovaram recentemente os parlamentares uruguaios. Sem isso, não há cidadania, não há cidade. Sobram-nos os guetos.

Lucci Laporta

Bacharela em Serviço Social, assessora parlamentar no Gabinete 24 – Fábio Felix. É mulher trans e bissexual. Socialista e trafeminista, organiza-se no PSOL e na TRAFEM – coletiva trafeminista.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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