Minha trajetória antes, durante e depois de conhecer o MTST

Eu me chamo Fabiane Cristine da Cunha – vulgo Bibi.

Tenho 24 anos. Tenho um filho de 5 anos (sou mãe solteira).

Antes de eu conhecer o MTST

Quem era a Bibi? Eu era uma mulher, mãe de um menino, mãe solteira sem nenhuma expectativa de vida. Eu vivia no mundo das drogas porque não conseguia um trabalho, não tinha casa (teto), não tinha expectativa de vida nenhuma.

Eu entendia que o mundo do crime, das drogas, era a minha única saída e solução. Assim pensava eu. Mas por nascer e morar toda minha vida na Estância, conheci e muitas pessoas me conheceram e conhecem.

Comecei a ouvir falar de um movimento chamado MTST. Confesso que não acreditava muito que seria possível um movimento com pessoas em suas coordenações que realmente se preocupar com os (as) outros (as) como se fosse com eles próprios. Fui em várias assembleias que aconteciam numa escola da Estância, aos domingos. Mas não levava tão a sério até conhecer mais de perto a coordenadora Mª José (Zezé). Conheci, comecei a conversar com a Zezé, daí ela me falou dos princípios do MTST. Mesmo sempre ela falava nas reuniões. A partir do dia que eu conversei com ela e contei um pouco da minha história de vida e trajetória, a Zezé me convidou a participar das Assembleias e me disse: “Eu não estou te prometendo nada, eu estou te falando de um movimento legítimo que luta por direitos. Direito à moradia e à cidade.  Ela me disse: “A partir de hoje não se sinta só, estaremos juntas nas lutas e nas vitórias”. E um grande abraço ela me deu.

Passaram meses, o MTST fez uma ocupação em fevereiro. Ficaram pouco tempo no local. Eu soube da ocupação, mas não pude entrar. Meu filho era muito pequeno e eu não encontrava ninguém para deixá-lo. Foram dias de muita chuva. Daí no domingo seguinte teve reunião e a coordenação falou da ocupação e da desocupação. Desocuparam mediante negociação com o Governo. Todas as famílias passariam por um cadastro socioeconômico, daí eu disse à Zezé: “Fiquei de fora mais uma vez”. Fiquei chateada e a Zezé me disse: “Companheira, critério de conquista é luta e participação. O MTST continuará nas lutas por direitos.

Passaram meses e eu participando das assembleias. A Zezé falou bastante esse dia. Muitas famílias. Daí ela fez um convite para o povo! Ela disse: “gente, vamos ter festa”. Eu não entendi! No final da reunião eu fui falar com ela e disse que não podia ir pra essa festa porque tinha um bebê. Ela disse: “não se preocupe. Amanhã ou depois você vai. Vai ter local e pessoas para ajudar nos cuidados do seu bebê, e no dia 22 de junho de 2015, o MTST ocupa a Estância novamente. No dia seguinte, soube de uma ocupação na Estância. Não sabia que era a ocupação do MTST e nem quem estava coordenando.

Daí começou a rádio Zé Povinho. Falaram que era a Zezé que estava lá. Eu fui lá, era o segundo dia de ocupação. Cheguei lá e falei com ela, a Zezé. Perguntei como fazia para entrar, já que tinha muita gente no local. Ela respondeu: “ Você quer somar conosco e lutar pelos seus direitos? ” Disse sim! Ela me disse: “Venha, monte sua barraca. Mas aqui não tem “meu”. Tem “nosso”. Aqui é tudo coletivo, café, almoço, janta, água, luz, ponto coletivo. Todos aqui têm o mesmo direito. Aqui não tem e nunca pode ter “minha área” ou “minha quebrada”, aqui tem uma ocupação do MTST.

Todos os dias à tarde a coordenação fazia assembleia, aos finais dos dias, na ocupação, para falar dos princípios do MTST. Na ocupação passei a conhecer outros coordenadores. Cada um tinha sua tarefa no acampamento, mas todos se ajudavam. A Zezé sempre perguntava no final das reuniões se alguém ali queria fazer parte da coordenação do MTST. Ela dizia: “Aqui ninguém precisa pagar para ninguém para fazer parte da coordenação e nem para fazer parte da ocupação. Aqui precisamos respeitar uns aos outros. Não aceitaremos desrespeito, preconceito, racismo ou seletividade. Não aceitaremos agressões contra mulheres, crianças, animais, idosos, deficientes. Não aceitaremos intolerância religiosa a nenhuma religião.

Daí a coordenação falou que na próxima Assembleia nós iríamos escolher o nome da ocupação. Na assembleia foi escolhido o nome da ocupação. Foram apresentados 3 nomes. O nome Maria da Penha venceu diante da história das mulheres que ali estavam. Elas se sentiram identificadas e mais seguras. O nome “Ocupação Maria da Penha Resiste”!

Seguimos na ocupação Maria da Penha Resiste por 9 (nove) meses. Durante esses meses nós convivemos nos trabalhos coletivos desde a alimentação, organização e limpeza coletiva da ocupação.

Dia 3 de maio de 2016 a coordenação do MTST foi chamada para uma reunião de Governo de emergência. Foi informado que nos dias 4, 5 e 6 de maio iria acontecer uma reintegração de posse na ocupação. A coordenação informou na Assembleia. Meu chão acabou. Estava disposta a tudo para não sair de lá. A coordenação deixou que as famílias decidissem se iriam sair ou esperar o dia 4. Nós, famílias, decidimos ficar e resistir porque sabíamos que era errado e injusto a reintegração porque três pessoas apareceram pedindo a mesma área. Mas quem nos desabrigou foi o Judiciário e um empresário grileiro bastante conhecido. Ele foi o responsável pela retirada de nossos direitos.

Dia 04/06 chegaram muitos PMs, oficial de Justiça. Tinha 7 do Batalhão de Choque. Muitos trabalhadores braçais, moradores de rua, de albergue. Todos alcoolizados e sob efeito de drogas. Assim foi montada a Equipe para fazer a reintegração de posse de trabalhadores e trabalhadoras que ali viviam. Nos mantivemos juntas (os) e prontas (os) para resistir. Daí começou a chegar a mídia. Mas a Mídia Ninja já estava conosco fazendo a denúncia para o Brasil. Por sua vez, chegou a Sedest e demais Secretarias do GDF. Iniciou uma negociação. O movimento e as famílias só aceitavam conversar com o GDF se a PM não entrasse e nenhuma máquina e que ambos do GDF apresentassem um local seguro para as famílias e seus pertences. Não apresentaram local para as famílias, somente para seus pertences, os caminhões para mudanças, não teve nada mais. A Sedest ofereceu auxílio aluguel. As famílias e eu recusamos porque queriam a casa própria.

Dia 6 tentamos e ocupamos outra área onde de fato, que de acordo com o endereço da Reintegração de posse poderia ser de um grileiro. Levamos despejo novamente. Voltamos para margens da BR 020, dia 7, e na noite do dia 08/06/2016 ocupamos o Albergue no Arapoangas. O Albergue foi construído em junho de 2014 para abrigar pessoas em situação de rua. Mas nunca havia sido inaugurado. Dia 08/06/2016 o MTST e as famílias inauguraram e passaram a dar função social àquele local que já estava bastante depredado. Seguimos negociando e exigindo o direito à moradia e cidade. Muitos meses de diálogo com o GDF.

Muitos anos de lutas, foram muitos anos. Muitos retrocessos, muitas vezes parecia que não ia avançar.

Até que chegou o grande dia. O dia da garantia de direitos.

No dia 30 de maio de 2017, o GDF entregou 57 lotes legais às famílias do MTST da Ocupação Maria da Penha Resiste Planaltina/DF, em Nova Petrópolis.

Hoje, eu continuo sendo Fabiane Cristina Cunha. Mãe, contemplada, não mais sem teto. Graças a deus a luta coletiva do MTST conseguiu garantir meu direito à moradia. Seguiremos buscando o direito à cidade. Hoje faço parte da Coordenação Regional do MTST, e seguimos lutando para garantir direitos dos que ainda não tiveram seus direitos garantidos.

Fabiane Cristine da Cunha – Bibi

Bibi é a prova de que os movimentos sociais e a luta muda vidas. É militante desde 2015 e da coordenação regional do MTST. Tem 24 anos e a mãe de um filho de 5 anos. Luta pelo direito à cidade e pela qualidade urbana para aquelas pessoas que mais precisam e que são esquecidas pelo Estado.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

Todos os textos são de responsabilidade do(a)s respectivo(a)s autore(a)s.

 

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