Extra! Extra! Brasília é uma farsa

Uma cidade sem marquises para seus mendigos e calçadas para seus poetas só pode ser uma farsa. Eu sei que vocês andaram lendo poetas daqui e seus poemas sobre a L2 , a W3 e alguma muda de abacateiro nos canteiros do plano piloto. Tudo bem. Mas, por acaso, vocês já tentaram caminhar em agosto & sua seca por essas quadras segurando seus filhos numa mão e as sacolas da compra no mês na outra?

Pensando nisso, um coletivo lotado de tesão metropolitano anda ocupando o centro de Brasília com Cultura e Oportunidade aos esquecidos. Aliando-se politicamente à moradores de rua, prostitutas, travestis, usuários de drogas, donos de saunas, donos de shoppings, donos de bares, donos de cafés, os meninos e meninas de temperamento lúdico-místico-empresarial andam arrancando os sisos da inércia urbana.

Com atuação no Setor Comercial Sul, também conhecido como Setor Carnavalesco Sul, Setor Canábico Sul e Setor Criativo Sul, buscam ali a criação de uma plataforma política-econômica-social que devolva ao SCS sua real vocação: o encontro de gentes. A santíssima trindade das conexões se compõe, Pai (Rodoviária), Setor Hoteleiro (Filho) e Espírito Santo (Galeria dos Estados) é sacralizada, cultuada e imolada como forma de democratização para esta cidade setorizada. “Como alguém se torna o que é?”, pergunta Nietzsche. O primeiro passo é definir-se como sul americanos, brasileiros e (neo)candangos.

No centro da crucis eles querem o encontro de Dona Sebastiana e suas compras na feirinha de Domingo, com os acalourados debates de la  Universidad, os moradores de rua brincando de bola com os filhos dos passantes, festas carnavalizando o cotidiano cinza da capital da república das bananas nanicas, animais totêmicos nascidos de tabus e estigmas saracoteando por muros, becos e praças.

Aqui, uma carta de princípios deixados pelos jovens em questão:

1) Conhecer o país, e governá-lo conforme o conhecimento, é o único modo de livrá-lo de tiranias. A nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa;

2) Bendito seja o SENHOR, minha rocha, que ensina as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra;

3) Criação de Hortas Públicas e Coletivas no Centro da Cidade;

4) Se reconhecer filho do sol, a mãe dos viventes;

5) Fugir das catequeses. Todas. Fazer Carnaval;

6) A convivência gera a demanda;

7) Contra as Máquinas, pelos Organismos. Contra o jejum. Pela abundância;

8) “Somos movidos pela Paixão” – José Salustiano;

9) Queremos uma Cidade Sentimental.

Ian Viana

Um homem tríplice. Criado por três mulheres, crio três cobras silvestres, três entidades me acompanham pelas noites enquanto durmo e outras três me acompanham em meu estado de vigília. Roberto Piva, Glauber Rocha e Oswald de Andrade. Poeta, sociólogo por formação, trabalho com revitalização urbana por meio de festas, atividades culturais, ecológicas e recuperação de moradores de rua. É uma loucura. Minha vida tem se tornado uma aventura. “Meu coração e o sol são feitos da mesma substância”. Publicou, em 2018, o livro “Eu era aquela cobra coral no quintal da tua infância”, pela Editora Patuá.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

Todos os textos são de responsabilidade do(a)s respectivo(a)s autore(a)s.

 

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