Eixão: em busca de novas respostas para um problema antigo

Na narrativa construída por seus idealizadores, Brasília surge como uma pérola da criatividade humana, celebrando uma nova era de desenvolvimento e evolução da sociedade brasileira. Do gesto de quem toma posse, marcando com uma cruz o território, o ato ousado de fundação da capital, retratado quase que heroicamente, recai sob um discurso profundamente idealizado, escondendo uma realidade que desafia a vida do brasiliense cada vez mais.

Para além das narrativas que buscam romantizar a construção da nova capital, o movimento de sua mudança para o interior foi fundamental para o modelo desenvolvimentista que o país seguia. Brasília foi passo lógico para o processo de expansão do capital, profundamente vinculado à indústria automobilística implantada nos anos 50, passando a instaurar em novos territórios seus padrões de divisão social e espacial do trabalho. Intermediada pelo Estado, em apoio aos setores privados, a cidade materializa a interiorização das fronteiras do capital no Brasil.

Um dos mais importantes elementos estruturantes do seu desenho, o Eixo Rodoviário, deixa evidente essa lógica. Elemento pensado como principal corredor de conexão entre as suas áreas residenciais, com a consolidação do projeto de Lucio Costa e o crescimento da frota de automóveis, passou a representar uma grande barreira para a mobilidade na capital. À beira da saturação, o Eixão, como é hoje, vai além de ser uma barreira física e motivo de insegurança ao pedestre. Também representa os ideais de uma sociedade classista, que nega a vivência completa e democrática da cidade a todos.

São comuns as notícias de acidentes. Segundo os dados mais atuais do Departamento de Trânsito do Distrito Federal, foram 73 em 2016, sendo 19 deles atropelamentos. Também não seria diferente, uma vez que as passagens subterrâneas -a possibilidade teoricamente mais segura para efetuar a travessia- expõem o pedestre a uma nova situação de vulnerabilidade, o que o leva a arriscar a sorte, e a vida, entre os carros. Embora a grande movimentação nos horários de fluxo intenso, as passagens são geralmente locais de permanência para usuários de drogas e moradores de rua, o que, infelizmente, alinhado com sua falta de manutenção e grande insalubridade, ajuda a criar o estigma desses espaços.

Mas quem são os pedestres que se lançam no espaço vazio com a esperança de efetuar sua travessia em segurança? Quem são esses corpos, na maioria dos casos periféricos, que se encontram no centro do problema? Realmente interessa às classes dominantes solucionar a questão, quando estas se encontram em seus carros, reclamando o aumento de engarrafamentos?

Apesar do evidente desafio que o planejamento urbano rodoviarista impõe ao cotidiano do brasiliense, pouca vontade política se tem em relação à mudança deste quadro. Ao longo de sua história, somam-se decisões que apenas perpetuam este modelo, levantando o questionamento: para quem esta cidade foi construída? O que se conta e reafirma com seu desenho? Brasília deixa clara uma narrativa de submissão dos corpos a um espaço construído para o automóvel, porém tão linda é a sua poesia, que mascara com seus ipês e tesourinhas uma realidade que pouco interessa ser enxergada.

Expressa no desenho da cidade, como no exemplo do Eixão, a profunda contradição da sociedade se faz concreta. Brasília é um cenário único, cujas características, profundamente vinculadas ao pensamento racional moderno, são materializadas pelo seu planejamento urbano, empregado tanto pelo setor público quanto privado, criando possibilidades favoráveis para a disseminação dos modos de vida dominados pela estrutura hegemônica. Uma vez que submete os corpos, segregando-os fisicamente e controlando-os sob lógicas de submissão ao espaço profundamente técnico, reforçando a dependência aos objetos para a execução de ações cotidianas.

Mais viadutos, muretas, requalificação das passagens, policiamento, a problemática é sempre observada com o intuito de melhorar o fluxo de automóveis e da suposta preservação do tombamento da capital, trabalhando sempre a favor da manutenção da mesma realidade de segregação e insegurança para o pedestre. Existe a possibilidade da construção de um horizonte mais igualitário, mais criativo em relação às saídas para a questão. Para isso, é necessário olhar sob um novo ponto de vista, mais ousado, menos limitado à conservação da estrutura existente.

Debater sobre o Eixão é procurar saídas para uma realidade muito maior. Não deixa de ser dar foco ao centro, como se é sempre dado, o que pode ser problemático quando situações muito mais desafiadoras se fazem presentes na periferia da capital. Porém, ainda assim é um gesto corajoso e fundamental, que carrega uma carga simbólica de superação de um projeto profundamente colonizador, que opera sobre uma lógica de segregação e controle seletivo dos corpos. Gesto urgente se desejarmos construir uma cidade mais democrática, onde a escolha pela construção de uma sociedade mais equânime esteja expressa em seu espaço.

Para tanto, fica o questionamento: a quem interessa que Brasília continue sendo feita de barreiras?

Amanda Sicca

Arquiteta e Urbanista, busco a cidade em mim. Me interesso em entender o espaço em todas as suas dimensões. Como espaço do viver em comunidade, do estar eternamente em contato com as inúmeras faces da existência. Busco compreender, mesmo que de forma fugaz, a sua plenitude. Enxergo a cidade como parte de meu corpo, parte fundamental do meu ser, que se espelha e vive espelhado em cada rosto que vê. Faço da minha profissão uma ferramenta para a construção de dias de maior partilha, entendendo que o tempo é agora e que a vida se faz de forma coletiva.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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