Distrito Federal: território criativo

A cinquentona Brasília foi o primeiro complexo arquitetônico-urbanístico do século XX tombado como patrimônio da humanidade pela Unesco, em 1987, ainda em seus tenros 27 anos de inaugurada e 30 anos de seu projeto. Trinta anos depois, em 2017, outro título estreita essa relação com as Nações Unidas, quando a Capital entra na Rede de Cidades Criativas da Unesco, na categoria design. O primeiro título premia a cultura urbanística de uma era, consagrada na paisagem do Plano Piloto que ainda estava em construção. O segundo, ainda sob a égide de suas origens no design, se sincroniza temporalmente com a maturidade das primeiras gerações que nasceram no DF, as quais trazem em seu DNA as influências das diferentes expressões da cultura nacional. As primeiras páginas da história do DF parecem seguir o destino profetizado por Lúcio Costa: “Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e a especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura das mais lúdicas do país.” – Memorial do Plano Piloto, 1957.

Concebido e desenhado por Lúcio, em 1957, o Plano Piloto de Brasília com suas generosas distribuições de cheios e vazios, eixos, superquadras, tesourinhas e endereços em códigos logicamente ordenados é um dos símbolos máximos e consagrados da cultura urbanística, o ápice do pensamento modernista. Seu sítio histórico abriga não apenas os registros do pensamento da era industrial e moderna, mas acolhe sob o mesmo céu diferentes níveis, hierárquicos ou não, de poderes oficiais e não-oficiais: os poderes locais – GDF, Câmara Legislativa e Tribunais; o poder central do País – Esplanada dos Ministérios, Congresso, Palácio do Planalto e Tribunais Superiores; as representações de Estados e agências de diálogo internacionais – Embaixadas e organismos internacionais; e diferentes manifestações de poderes populares que mobilizam, em torno da reverência à cultura nacional e da busca de sua própria, populações em núcleos de todo o DF. Um ambiente diverso que começa a efetivamente escrever sua história e manifestar sua cultura.

Brasília tem uma trajetória acelerada, que começou em sua construção: é uma cidade que foi desenhada, planejada e construída em apenas três anos para ser capital do País, bem como tombada como patrimônio-histórico na mesma segunda metade do século XX. O jovem e modernista sítio tombado tem uma peculiaridade que pode não ter sido pensada à época do tombamento, mas que afeta diretamente o desenrolar da vida própria da cidade: a área tombada é atrelada ao uso e ocupação do solo, algo incomum em sítios históricos. Tal fato deflagra custos e conflitos à cidade dispersa cujo uso do solo é tão rigidamente definido em sua origem, assim como ela padecem e se reinventa a olhos vistos sob os efeitos acelerados da era digital. A proximidade das faixas de uso misto, nos comércios locais, das áreas de uso exclusivamente residencial, nas superquadras, são um exemplo da configuração urbana original que conflita com a expansão natural da cidade em se afirmar. Criam-se, por esta configuração peculiar, limitações ao estabelecimento de bares e restaurantes, ao entretenimento, ao convívio e às manifestações culturais, especialmente à música, outra de suas vocações.

No centro nervoso da cidade, outra situação antiga em seu contexto temporal é a deterioração social e física do Setor Comercial Sul – SCS, que se tornou, podemos afirmar, obsoleto em sua proposta original. Primeiramente pelos shoppings, que começaram a se instalar nos anos 1980 no DF. Mostrando-se mais seguros e concentrados, ocuparam o papel do SCS e da via W3 Sul que, por algum tempo, cumpriam às vezes de centro comercial linear. Mais recentemente, a popularização do comércio eletrônico, desde os 2000, agravou a crise de sentido original de um setor comercial físico. Como consequência quase natural, o SCS hoje carrega o fardo de ociosidade e periculosidade ao usuário comum fora do horário comercial.

Se o “exemplar” sítio tombado se depara com conflitos decorrentes da rigidez no uso do solo, a situação não é menos tensa fora dos limites do tombamento, senão mais conhecida por urbanistas brasileiros. Algumas áreas ocupadas de forma irregular no DF – em verdade foram lotes comercializados desta forma, como os condomínios de classe média e o Itapuã – e mesmo regulares, como os condomínios do Minha Casa Minha Vida, foram implantadas sem o princípio de associar equipamentos coletivos e de serviços essenciais à qualidade de vida da população que migrou para essas áreas. Embora seus traçados evidenciem que houve um projeto desenhado para sua implantação, fica também evidente a sobreposição do poder do capital em detrimento da qualidade do espaço. O reflexo é uma paisagem urbana típica de cidades do interior do Brasil, que surgiram e cresceram de forma espontânea, cuja leitura é diversa da esperada pela cátedra modernista.

De outro lado, a alma cultural pulsante e expansiva da vida urbana candanga parece estar atenta e à vontade com a necessidade crescente de revitalização, ocupação e subversão de espaços públicos. No século XXI, este é um movimento crescente no Distrito Federal, que se dá por meio de repertórios culturais diversos e simbólicos da cultura brasileira e que vem se manifestando espontaneamente em diferentes áreas, dentro e fora do Plano Piloto, inclusive no SCS – tatuado, mas perdido, no tecido urbano. Uma cena cultural pulsante e criativa, ainda desorganizada, e que mesmo assim inspirou a candidatura de Brasília a Rede de Cidades Criativas da Unesco.

O conceito de cidade criativa nasce do movimento da classe criativa de ocupação e revitalização social e econômica de áreas com passado industrial ou comercial, no final dos 1980 – como se observa hoje no DF, especialmente no SCS. Nos 1980, também avançam as discussões sobre os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente e aumentam a participação da cultura, das artes e do turismo na economia da cidade e do meio urbano. Nos 1990, a cultura, a criatividade e o conhecimento se equiparam aos principais ativos econômicos, iniciando uma corrida na mudança de percepção de possibilidades futuras às cidades em todo o mundo.

Neste contexto a Unesco começa a reunir, a partir de 2004, as cidades que adotaram a criatividade e a sustentabilidade como eixo de desenvolvimento, por meio da Rede de Cidades Criativas. Sobretudo voltadas à economia das cidades e o resgate cultural na era digital, a cidade criativa passou a ser uma vista como uma forma capaz de atrair, para os domínios da cidade, excedentes econômicos nacionais e internacionais, especialmente pelo turismo. A nova economia que acompanha este movimento botton-up – de ocupação de infraestruturas industriais ou comerciais que ficaram ociosas na pós-modernidade industrial pela classe criativa – tem alto impacto no PIB; é intensiva e diversificada em pessoal, tecnologia e cultura; e se pauta pelas demais dimensões da sustentabilidade.

A Rede de Cidades Criativas da Unesco promove às cidades-membro a cooperação e a troca de experiências bem-sucedidas pautadas na criatividade e na cultura como fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. Apresenta-se como a principal contribuição da Unesco a Agenda 2030 e a Nova Agenda Urbana na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), no nível local. Cada cidade-membro da UCCN candidatou-se e recebeu sua designação em uma das sete categorias que melhor expressa sua criatividade: 1) artesanato e artes folclóricas; 2) artes midiáticas, 3) cinema, 4) design; 5) gastronomia; 6) literatura; e 7) música.

Em 2017, a UCCN passou a contar com 180 cidades-membro em 72 países, dentre as quais Brasília (2017), na categoria design. No Brasil, há oito cidades membro da Rede, duas na categoria design – Brasília (DF) e Curitiba (PR); três em gastronomia – Paraty (RJ), Belém (PA) e Florianópolis (SC); João Pessoa (PB), em artesanato e artes folclóricas; Salvador (BA), em música; e Santos (SP), em cinema. Em todo o mundo, são 31 cidades do design na Rede, das quais quatro na China e duas no Japão, no Brasil e no México. As Redes Sociais são o principal meio de comunicação e articulação dessas cidades.

A reunião das diversas matrizes culturais brasileiras e a crescente e diversa ocupação da cidade que se observa em suas manifestações posicionaram o DF como a Unidade da Federação com mais alto índice de criatividade do País, em pesquisa da Fecomércio (2012). Já se registra a atuação de 22 mil pessoas nas iniciativas públicas e privadas da economia criativa no DF, o equivalente a 1,5% do mercado local (GDF Setur, 2017).

No território do DF, portanto, convive o máximo da cultura urbanista moderna, com o excesso de ordenamento no Plano Piloto, especialmente, e em outras áreas; a ocupação espacial desordenada, típica do interior do Brasil, nas bordas; o poder político local, o nacional e o popular, manifesto na cidade; e as representações diplomáticas dos países amigos. Assim, o DF é um território com tradição recente e diversa em influências culturais, políticas e urbanas, nacionais e internacionais, onde, por isso mesmo, se revela um celeiro para inovações. 

O ápice do pensamento modernista, que atraiu artistas, arquitetos, paisagistas, designers, intelectuais e outros em seus primórdios para a cidade, deixou um legado artístico e cultural que, com o tempo, vai se perdendo em meio à negligência típica que se observa em nosso País. Um patrimônio inestimável de cultura e arte que a própria população desconhece ou não tem a percepção do valor. Algumas dessas obras estão em espaços de educação e de cultura, criados para a educação integral e artística e a fruição cultural.

Por sua atratividade única no contexto urbano e em formação de população, o DF tem um papel insubstituível na Rede de Cidades Criativas: é um território vivo para a pesquisa e a experimentação da arquitetura e do design modernos e pós-modernos, capaz de captar contribuições de todo o mundo. Mais do qualquer outro local, a Capital do Brasil, do design e da arquitetura tem a vocação natural de se tornar um grande, senão o maior, centro de estudos do modernismo e da era moderna, aliando as escalas urbana e humana, da arquitetura e do design. A atração de olhares de pesquisadores e estudiosos para nossa população jovem e de vanguarda, nosso sítio histórico ícone do modernismo e/ou os outros sítios caóticos em ocupação, podem surgir as inovações esperadas aos novos desafios urbanos.

Brasília, é hora de entender e assumir seu lugar.

Fernanda Bocorny Messias

Arquiteta (FAU-UnB), com MBA em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (UGF/2013) – design para a sustentabilidade. É Mestre em Desenvolvimento Sustentável (CDS-UnB) – relação da Economia Criativa com a Sustentabilidade e Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo (FAU-UnB) – cidades criativas. Atua como professora, curadora de eventos criativos e consultora em políticas públicas, com ênfase na indústria, design, sustentabilidade e cultura. Foi servidora na IBM Brasil (1990-1997).

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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