A promoção da dignidade das pessoas em situação de rua

A pessoa na rua não deixa de ser pessoa. Mas é assim que a sociedade a trata: como alguém que não é digno de ser tratado como ser humano. Ao mesmo tempo que o mundo vira as costas, outras portas parecem se abrir para quem acabou chegando à situação de rua: as drogas são refúgio seguro. Mas refúgio que tem um preço: se as drogas acolhem e a sociedade abandona, porque não tirar da sociedade pra poder seguir com as drogas? Mergulha-se assim em uma espiral que é cada vez mais difícil de sair.

O que devemos fazer pra resolver esse problema? Devemos oferecer alternativa. Devemos falar em redução de danos. Devemos acolher. Partir do pressuposto que aquela é uma pessoa que precisa de cuidado. Pensar cursos de qualificação, pensar formas de fazer ela se sentir melhor, fazer ela ver que tem gente que acredita nela e que ela tem que acreditar nela mesma. Isso pode ser feito de formas simples: por exemplo, no Setor Comercial Sul, toda sexta o povo da rua pode jogar bola e tem uma opção de lazer. Parece pouco, mas é uma prática esportiva, é um momento de convivência, um momento de gastar energia e é, também, um espaço de distanciamento das drogas.

Brasília ainda tem muito o que avançar nesse sentido. A capital não conhece inflação, porque o poder aquisitivo é alto, e é solidária nas esmolas pra quem está na rua, há alguma caridade, mas isso não basta. A regra ainda é a mesma que vigora em todas as grandes cidades: o desrespeito, o abandono e a negação total de direitos humanos a essas pessoas, tratadas como qualquer coisa menos gente.

A luta para que as cidades tratem seus moradores de rua de forma diferente é árdua, mas com certeza os resultados sempre valerão a pena. Pessoas em situação de extrema vulnerabilidade precisam de cuidado, de políticas públicas, de mecanismos para romper a precariedade que muitas vezes se encontram. Acesso a serviços básicos são negados a essa parcela da população. Os banheiros públicos do Setor Comercial Sul seguem fechados e não cumprindo sua função. Não há espaços permanentes para banhos (com exceção do projeto que tocamos com a ONG Futuro Esperança, que leva semanalmente um ônibus equipado para que as pessoas que vivem no SCS possam fazer sua higiene pessoal). Também não existem bebedouros públicos que melhoraria muito a qualidade de vida e a saúde de nossos irmãos e da população que Brasília que frequenta as áreas centrais da cidade.

O que não falta é gente precisando apenas de uma oportunidade. Se nós não dermos, não adianta esperar que seja diferente. Já avançamos em alguns projetos relevantes. Existem, também, muitas iniciativas que procuram acolher e dar dignidade a essas pessoas. Conseguimos, com auto-organização da população em situação de rua e de pessoas que já passaram por isso e agora querem auxiliar seus irmãos que ainda estão em dificuldade, pressionar a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal e a Secretaria de Desenvolvimento Social para que a população em situação de rua fossem incluídas nas políticas de moradia, como manda a lei, e conseguimos. Doze quitinetes foram destinadas a essas pessoas, algumas que viviam a mais de 25 anos nas ruas da capital. Um primeiro passo foi dado que agora precisa ser avaliado, melhorado e ampliado. O governo tende a fazer políticas públicas sem pensar nas pessoas. Precisamos fazer com que os projetos sejam feitos olhando quem vem de baixo caso contrário, nada vai dar certo.  

Enquanto políticos, servidores públicos, comerciantes e a população de um modo geral não aprenderem a respeitar e trabalhar com as pessoas em situação de rua, seguiremos fazendo o que podemos, promovendo o tratamento comunitário e a cada dia fortalecendo nossa convivência e nossos vínculos com os irmãos em situação de rua, no Setor Comercial Sul e em cada canto do DF, juntos e juntas na luta por uma cidade que todas as pessoas tenham lugar, teto, direitos e sejam respeitadas.

Rogério Soares, o Barba

Ativista, educador e empresário social. É ex-morador de rua  e, graças ao trabalho social realizado no projeto em que participou, tornou-se referência e liderança para os Porta-Vozes da Cultura. Atua em prol das pessoas que ainda se encontram em situação de rua, sendo diretor da Ong Futuro Esperança, e apresenta um programa ao vivo semanal de entrevistas na TV Comunitária do DF.

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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