A “Fake News” de JK

“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Declaração de JK em 1956 (KUBITSCHEK, 2000, p.391 grifo nosso)

Há tempos não vou à Planaltina. Para resgatar esse tema que me é caro, resolvi fazer uma breve pesquisa. A título de curiosidade, procurei compreender melhor se os habitantes do Distrito Federal eram familiarizados com a história da cidade, através dos seus dois monumentos históricos mais iconográficos: o Museu Histórico e Artístico de Planaltina e a Igreja São Sebastião. Foram 58 entrevistados, do DF e entorno, entre 20 e 67 anos. Deles, 88% tem pelo menos o nível superior completo, dos quais 33 possui também pós graduação (lato e stricto sensu).

Fotos do Museu (FONSECA, 2008) e da Igrejinha (ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE PLANALTINA, 1985), de 1935 e 1921, respectivamente.

A pesquisa consistiu em apenas 2 perguntas. A primeira retratava a fachada atual do museu e pedia ao entrevistado que escolhesse dentre 4 opções, qual delas se referia ao edifício ilustrado. A segunda não mostrava imagens, mas perguntava qual das 6 opções textuais seguintes se referia ao edifício mais antigo do DF. Nesse caso, os que optavam pela escolha certa, eram direcionados a uma nova pergunta com 5 imagens de igrejas, para que indicassem qual delas correspondia à Igreja São Sebastião. Somente 7 dos entrevistados (12%) conheciam a relevância histórica dos dois edifícios e souberam reconhece-los em fotos.

A construção de Brasília foi acompanhada de uma estratégia de comunicação propagandista, que procurava passar a imagem de um empreendimento pioneiro, como se a nova capital fosse edificada em terras áridas trazendo a fertilidade ao Planalto Central. Nesse discurso, não houve espaço para contar a história de Planaltina.

“Não vos preciso recordar, nem quero fazê-lo agora, o mundo de obstáculos que se afiguravam insuportáveis para que o meu Governo concretizasse a vontade do povo, expressa através de sucessivas constituições, de transferir a Capital para este planalto interior, centro geográfico do País, deserto ainda há poucas dezenas de meses. Não nos voltemos para o passado, que se ofusca ante esta profusa radiação de luz que outra aurora derrama sobre a nossa Pátria. Quando aqui chegamos, havia na grande extensão deserta apenas o silêncio e o mistério da natureza inviolada.
Discurso de JK na inauguração de Brasília em 1960. (FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO, 2009, p. 51 grifo nosso)

A cidade colonial se rendeu útil à capital apenas quando lhe foi conveniente. Durante a sua implantação, as atividades de prostituição no Plano Piloto foram alvo de críticas da sociedade “de bem” e da ação da polícia (RODRIGUES, 2003). Os pioneiros passaram então a procurar bordéis no entorno, ocasionando um grande crescimento da “Zona do Baixo Meretrício” (ZBM) de Planaltina. Como resultado, o centro histórico de Mestre D’Armas foi “presenteado” com uma epidemia de sífilis: “De cada três mulheres do “setor boêmio”, uma apresentou reação positiva.” (PEREIRA, 1977).

Antiga casa de programa na Av. Marechal Deodoro (IPHAN, 2013).

Brasília deve desculpas a Planaltina. Graças a diversos moradores do Setor Tradicional, como a ativista Simone Macedo e a Associação dos Amigos do Centro Histórico de Planaltina, a memória da cidade tem sido relembrada e conservada a duras penas, mas é hora de incluir o nosso passado colonial nas políticas públicas urbanas e na história do Distrito Federal.

Referências bibliográficas

Administração Regional de Planaltina, Planaltina… relatos. Brasília: Administração Regional de Planaltina (Coleção Planaltina. Séria Depoimentos, 1), 1985
Kubitschek, Juscelino. Por que construí Brasília. Brasília: Editora Senado, 2000
Fonseca, Fernando Oliveira (Org.). Águas Emendadas – Distrito Federal. 2 ed. Brasília: Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Seduma, 2008, p. 27
Fundação Alexandre de Gusmão. Discursos selecionados do Presidente Juscelino Kubitschek. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 2013. Inventário Do Setor Tradicional de Planaltina. Brasília: IPHAN, 2013
Pereira, Maurício Gomes. Inquérito sorológico de sífilis em adultos: Planaltina, DF, Brasil, 1977. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 14, n. 3, p. 358-365,  Set.  1980 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89101980000300008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em  27  Mar.  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89101980000300008.
Rodrigues, Marlene Teixeira. Polícia e prostituição feminina em Brasília – um estudo de caso. 2003. 369 f. Tese (Doutorado em Sociologia)-Universidade de Brasília, Brasília, 2003.

Ana Laterza

Arquiteta e Urbanista pela UnB e com Mestrado Europeu em Restauro e Conservação no Politecnico di Torino, na Itália. Seu trabalho final recebeu o prêmio italiano de “tesi meritorie” pelo PoliTO. Em 2013, coordenou junto ao Professor Pedro Paulo Palazzo o Inventário do Setor Tradicional de Planaltina, para o IPHAN, que recebeu menção honrosa na categoria “publicação” da premiação “Nova Arquitetura de Brasília”, promovida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-DF).  Atualmente assessora a Comissão de Relações Internacionais do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR).

Com o objetivo de pensar alternativas aos problemas que afligem a população, o projeto 30 Dias Pelo Direito à Cidade busca formar um mosaico de visões dos mais diversos personagens que vivem, constroem e projetam a metrópole brasiliense.

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