Foto: Eurico Eduardo/Agência CLDF

A CPI dos Atos Antidemocráticos realizou duas oitivas nesta quinta-feira (31). O Cacique e pastor José Acácio Serere Xavante, uma das principais lideranças do acampamento golpista do QG do Exército que foi preso em 12 de dezembro desencadeando uma série de atos terroristas em Brasília, e Armando Valentin Settin Lopes de Andrade, acusado de participar de reuniões em que bolsonaristas planejavam explodir diversos locais.

O primeiro a ser ouvido foi o Cacique Serere, ele afirmou que sua vinda à capital foi motivada por querer a “transparência de todos os órgãos públicos”. O deputado Distrital Fábio Felix, porém, reforçou que as manifestações em Brasília, após as eleições, eram de cunho golpista com intuito de questionar e anular o resultado das urnas.

Serere se defendeu alegando que sua desconfiança em relação à credibilidade das urnas foi baseada em uma nota emitida pelo Ministério Defesa e chegou a pedir que a CPI buscasse essa nota, como forma de provar sua fala. Fábio pontuou que essa era uma informação crucial. “É importante o senhor estar falando isso porque estamos aqui investigando quais foram os fatos divulgados, por diferentes órgãos do poder executivo federal e pelas falas do ex-presidente da república, que motivaram as pessoas a atacarem o sistema eleitoral brasileiro e a democracia brasileira”.

Em seguida, Fábio questionou ao depoente se, nos 30 dias em que ele ficou no acampamento golpista, ele teria visto faixas pedindo intervenção militar e intervenção federal, ele titubeou, depois confirmou que sim, mas depois disse que não sabia quais eram as pautas reivindicadas pelos acampados.

“Mas como o senhor participa de um movimento em que não sabe qual é a pauta?”, perguntou o parlamentar. O Cacique se limitou a responder que ia aonde as outras pessoas [do acampamento] iam e que todas manifestações eram pacíficas. Fábio rebateu reproduzindo uma fala de extrema violência de Serere contra o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. “ ‘Se os generais não executarem o seu juramento, podem me matar. Mas eu tiro o vagabundo do Alexandre de Moraes na marra. Arranco ele pelo pescoço. Ou pode mandar me prender’, o senhor disse isso?”, quis saber Fábio Felix. “Não vou responder”, disse Serere.

Fábio finalizou relembrando o dia 12 de dezembro de 2022, quando a prisão do Cacique desencadeou ataques terroristas na área central de Brasília. Serere é acusado dos crimes de ameaça, perseguição e abolição violenta do Estado democrático de Direito. Segundo a Polícia Federal, ele participou de atos golpistas em frente ao Congresso, no Aeroporto de Brasília, no centro de compras Park Shopping, na Esplanada dos Ministérios e em frente ao hotel onde estavam hospedados o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice, Geraldo Alckmin.

O deputado indagou se Serere recebeu ordens de militares ou outras lideranças para promover as manifestações e discursos golpistas, ele negou e enfatizou que sempre fez tudo “por contra própria”.

Armando Valentin e plano bomba

O segundo depoente, Armando Valentin, está preso por participação nos atos golpistas do dia 8 de janeiro. Ele também admitiu, em depoimento, ter participado de reuniões no acampamento do QG do Exército que tratavam sobre planos terroristas que consistiam em distribuir bombas em diferentes locais de Brasília. Ele agora cumpre prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.

Fábio Felix repudiou a postura adotada por Armando na CPI, que negava tudo o que já havia dito previamente em depoimento prestado e assinado por ele. “Do meu ponto de vista é muito fácil, depois de entender a repercussão e a gravidade das ações que aconteceram, o senhor fazer esses tipos de afirmações. Mas nós vamos trabalhar aqui com documentos e com o depoimento que o senhor prestou e assinou dado à Polícia Civil”, frisou o deputado.

Logo depois, Fábio Felix questionou se o bolsonarista fazia parte de grupos de Whatsapp cujos conteúdos eram vídeos sobre suposta fraude eleitoral. Armando confirmou, mas não quis responder sobre conteúdos que atacavam o ministro Alexandre de Moraes. Ao ser confrontado novamente por Fábio, acabou cedendo e confirmando.

Sobre o fato de ter citado Serere como uma das lideranças do acampamento, Armando Valentim agora negou e disse que ele era “líder de nada, só mais um de nós”. Sobre ter afirmado que o agronegócio era o financiador dos insumos para o QG, o depoente também mudou a versão, dizendo que “cada um dos acampantes faziam pix para que todos pudessem se manter lá”.

Ele confirmou que havia pessoas incitando e dando ideias para atos extremos, como ataques a bomba, mas negou que tenha participado ativamente dessas ações. Em relação ao dia 8 de janeiro, o acusado disse, em depoimento à PCDF, ter passado com extrema facilidade pelas barreiras de segurança em um movimento que parecia ter apoio dos Policiais Militares. Afirmou, também, que ficou orgulhoso de saber que os agentes estavam do lado deles.

Respondendo à tentativa do depoente de atribuir os ataques à “infiltração de esquerda”, Fábio Felix afirmou que “essa teoria é papo de covarde que não tem coragem de assumir o que fez no dia 8 de janeiro e no dia 12 de dezembro”. E prosseguiu: “não trazem provas, não apresentam nem um nome. Fizeram e organizaram uma manifestação que não tinha nada de pacífica, querem se esconder atrás da religiosidade para fazer ações extremas e violentas. Viu a depredação do prédio público, entrou e não lembra de nada? Não lembra do depoimento que deu à Polícia Civil? Isso é uma postura covarde”, disse Fábio em suas considerações finais ao depoente.

O parlamentar do PSOL também repudiou a hipocrisia de alguns parlamentares de direita que, pela primeira vez, se mostram “preocupados e interessados nos direitos dos povos indígenas e das pessoas em privação de liberdade. Me causa estranheza esse senso humanitário de ocasião que é puro oportunismo”.

Por: Manuela Correa