“A tentativa de golpe na ordem democrática talvez seja um dos crimes mais difíceis de se apurar, porque se o golpe estivesse consolidado eu não estaria sentado aqui inquirindo senhor”, disse o deputado Fábio Felix (PSOL-DF) na oitiva da CPI dos Atos Golpistas desta quinta-feira (1), que recebeu o General Heleno, ex-ministro de Jair Bolsonaro e ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

O parlamentar expôs que houve um claro planejamento para instituir um golpe mas que existe uma tentativa geral de provar que os atos terroristas foram apenas obra do acaso de um grupo radicalizado, sem planejamento e sem intenção. “Isso é muito preocupante para democracia brasileira, porque houve um planejamento intelectual, planejamento financeiro. O nosso dever como CPI é não tratar nenhum diálogo intencional, especialmente de autoridades públicas que ocupavam cargos estratégicos, como bravatas. Em outros momentos da história brasileira, os golpistas prevaleceram e os que foram vencidos tiveram que deixar suas casas e o país, muitos foram torturados e mortos, então o Brasil não pode brincar com a palavra golpe”, enfatizou.

Foto: Alexandre Bastos/Mandato Fábio Felix

O deputado iniciou os questionamentos perguntando sobre a relação do General Heleno com o Supremo Tribunal Federal e citou uma nota emitida por ele, em 2020, quando a Justiça ameaçou apreender o celular do ex-presidente. “O senhor não acha que foi uma nota intimidatória?”

“Não, foi realista”, respondeu o General que em seguida foi questionado pelo deputado sobre ter orientado ataques ao STF, liderados pela ativista Sara Winter, em 2021. Ele disse que de fato se reuniu com a ativista, mas que a orientação foi somente para cessar ataques à imprensa.

Fabio insistiu e afirmou que existem várias declarações gravadas do depoente contra o STF, incitando ataques à instituição. “É muito grave atacar a independência do Supremo, que em outros momentos já atuou de forma tutelada nesse país e teve mandatos de ministros cassados, o que é perigoso e a gente espera não viver novamente”, ressaltou.

“Tá bem”, se limitou em responder o inquirido, visivelmente nervoso.

Desmoralização das urnas

“O senhor participou de uma live, que inclusive está sendo investigada hoje, com o ex-presidente Bolsonaro atacando a urna eletrônica. O senhor acredita nelas e na justiça eleitoral brasileira?”, perguntou Fábio Felix ao General que primeiro negou a participação, depois disse não se recordar e por fim respondeu que acredita “em termos” na urna eletrônica.

O parlamentar indagou sobre a reunião, convocada por Bolsonaro,  para apresentar dados falsos sobre as urnas à embaixadores de diversos países. “O senhor estava nessa reunião?” “Estava, mas não participei”, disse o General em resposta contraditória.

Fábio ponderou que as diversas tentativas de descredibilizar a justiça eleitoral brasileira, e o não reconhecimento do resultado das urnas por parte do ex-presidente, estimularam os atos do dia 12 de dezembro e 8 de janeiro, portanto, a CPI precisa investigar todos os fatos que precederam os ataques. O parlamentar pediu, então, explicação detalhada sobre a atuação do GSI nos episódios terroristas do ano passado, que ocorreu na área central de Brasília.

“Eu recebi alguma coisa, eu tinha ligação com o sistema de inteligência, alguma coisa foi levantada pela Abin. Mas isso é assunto sigiloso, eu não me lembro mais, não vou me lembrar do que aconteceu”, rebateu Heleno gaguejando.

Fábio, então, relembrou ao depoente que no dia 12 de dezembro extremistas bolsonaristas queimaram ônibus, carros e um posto de gasolina, tentaram invadir e depredaram uma delegacia da Polícia Federal e outra da Polícia Civil, e se aproximaram do local onde estava o presidente eleito no dia da diplomação.

“Eu assisti da minha casa, vi que a polícia agiu convenientemente e fui dormir”, disse o General, na época responsável pelo comando do Gabinete de Segurança Institucional.

Para finalizar, Fábio reafirmou o compromisso da Comissão Parlamentar de Inquérito em dar respostas para a sociedade. “É preciso que nós tenhamos coragem para investigar aquilo que de fato se armou nesse país. Nós temos um roteiro, uma trama sórdida de ataque à justiça eleitoral brasileira que produziu um dos piores momentos da nossa democracia, com a depredação da sede dos Três Poderes no dia oito de janeiro. Precisamos chegar nos planejadores intelectuais que foram os que incitaram a gerar um levante popular para tentar inviabilizar o resultado das eleições”.